segunda-feira, janeiro 15, 2018

Era uma vez uma experiência de serviço voluntário europeu

 Outubro 2017
Ofereceram-me a oportunidade de testemunhar sobre a minha experiência de serviço voluntário europeu, concluída há cerca de mês e meio. Aceitei, embora ainda tenha alguma dificuldade em expressar-me sobre o assunto. Sinto-me um pouco como o gémeo de Einstein, aquele que seria enviado numa nave espacial a uma velocidade próxima da luz e que ao regressar à terra encontraria o irmão mais velho porque o tempo passaria mais lentamente para quem viajasse a grandes velocidades. Einstein estava certo porque a dilatação do tempo, prevista na Teoria da Relatividade Restrita, veio a ser confirmada: o tempo avança mais devagar num relógio em movimento em relação ao que acontece num relógio em repouso.
A minha viagem de alta velocidade teve início no momento em que dei início aos preparativos para partir, não mais de duas semanas antes do voo. Foi a Rota Jovem a enviar-me. O destino era Pordenone, uma pequena cidade tão desconhecida agora para o mundo como o era para mim há um ano.  A quem me perguntava para onde ia, respondia, “uma pequena cidade perto de Veneza”. Não era mentira, era uma simplificação à qual os próprios pordenonenses recorrem quando se afastam do nordeste italiano. No entanto, não me passa pela cabeça simplificar agora, quando sei melhor. Pordenone é capital de uma das quatro províncias que constituem a região Friuli-Venezia-Giulia, localizada no nordeste italiano, vizinha da Eslovénia e da Áustria e banhado a sul pelo Adriático, incomparável ao nosso mar, que é oceano, mas esse é outro predicado. O que a maior parte das pessoas também não saberá é que a Friuli é guardiã de autênticas gemas naturais de rara beleza, recantos ainda desconhecidos do grande público. Gostaria, talvez egoisticamente, que assim permanecessem.
Evidentemente, não me candidatei a este projecto por Pordenone, ou pelo sonho italiano, que é suficiente para levar tantos jovens voluntários a Itália todos os anos. O projecto, como descrito, consistia genericamente em fazer parte de uma pequena comunidade terapêutica para pessoas com distúrbios mentais, ajudando os seus residentes a percorrer o caminho em direcção à autonomia através da vida comunitária. O que sabia disto? Rigorosamente nada e foi precisamente isso, e um sonho muito muito antigo, já um pouco escondido, de voluntariar no estrangeiro, que originou a minha candidatura. Um ano nesta comunidade, a Casa Ricchieri, foi outra viagem alucinante. Julgo que o facto de quase nada saber, nem mesmo a língua na fase inicial, foi aquilo que manteve a antena de recepção sempre ligada. Isso e as pessoas, claro.
De um lado, os residentes e as suas idiossincrasias no geral, tanto as de carácter como as patológicas, afinal que sentido há em compartimentar seres humanos quando o objectivo base do projecto era precisamente aquele de descompartimentar. Em 1973, Marco, um cavalo de madeira azul, construído nos laboratórios artísticos do quase encerrado manicómio de Trieste, percorreu as ruas da cidade como símbolo da liberdade e humanidade dos doentes mentais. Um ser humano pode estar doente, seja qual for o tipo de doença, e ser simplesmente humano, com a dignidade que lhe é devida porque existe, ponto, como todos as pessoas, de resto. O Marco ainda tem muitas estradas por este mundo fora para palmilhar. Do outro lado, a equipa, os operatori, que me acolheram, me ensinaram continuamente - mesmo quando não se apercebiam de estar a fazê-lo -, com quem partilhei todos os vários momentos, os melhores e os piores, de uma vida em comunidade. Estas comunidades são uma herança basagliana. Franco Basaglia, o psiquiatra responsável pela reforma da psiquiatria na segunda metade do século XX em Itália.  Alegro-me em saber-lhe o nome. A todas estas pessoas, dirijo um eterno agradecimento, por me ajudarem a ver o mundo pela substância, em todas as tonalidades do arco-íris.
Não parti embebida no sonho italiano (o que não significa não ter possuído qualquer interesse na bota da Europa à priori) mas saborei-o enquanto o vivi, desfazendo-me de todos os estereótipos tradicionais - pizza, pasta, máfia - e substituindo-os pela verdade dos meus sentidos. A disparidade entre o norte e o sul é acentuada, em todos os sentidos, desde o económico à cultura da personalidade. Se no sul encontrei a caricatura do italiano aberto, extrovertido, barulhento, no norte encontrei-os mais reservados, talvez temperados pela proximidade às fronteiras europeias. O italiano pode ser a língua nacional mas ignorar o número tamanho de dialectos e línguas usados quotidianamente em todas as regiões do país seria ter caminhado todo o ano de ouvidos tapados. Pessoalmente, tomei um gosto particular ao italiano falado em Pordenone, um pouco veneto, na verdade, e ao friulano da Carnia, a norte, não obstante ser quase tão incompreensível agora como o era há um ano.
Não existe cidade que não tenha recorrido à Santíssima Trindade italiana para nomear as suas vias e praças – Garibaldi, Vittorio Emanuele II e Cavour -, pais da Itália moderna, séculos mais jovem que o nosso pequeno rectângulo, muito mais tranquilo e unido. As cidades são museus vivos de história e arte e as pequenas aldeias, pelo menos as friulanas, são pedras preciosas. A gastronomia italiana é, de facto, de excelência e, segundo os próprios, intocável. A melhor pizza é, sem sombra de dúvida, a napolitana. Os risottos fazem-se a norte, aquecem as noites frias de Inverno. A polenta, meh. A melhor pasta, da Emilia-Romagna para baixo. O canoli siciliano é a sobremesa de deuses. Queijo, queijo, queijo. Pasta all’oglio e peperoncino! Grappa, talvez nunca mais. Cultura do aperitivo, vinhos. O melhor tinto provei-o em Erto. Vin brulé no Natal. Café, Lavazza, da manhã à noite. Trieste e a Piazza Unità, de braços estendidos para o Adriático. Veneza, de noite. Santo António de Pádua, na companhia de espanhóis. Bolonha, das duas torres, dos pórticos, dos segredos, dos jovens. Verona de Shakespeare. O complexo sem cor, Milão, animado pelos encontros e reencontros. Florença de Dante e do Renascimento. A grandeza laranja de Roma. O sol de Inverno de Nápoles e a sua decadência sedutiva. A ameaça silenciosa de Pompeia. O sonho siciliano. Gorizia, cidade fronteiriça, de guerra. Os dolomiti friulanos. O amor em Ileggio. As gravas. As extensas pianuras verdes sem horizonte. Um pouco mais longe, a surpresa de Zagreb e o sossego esloveno. Pordenone, grigio (cinzento) Pordenone.
Foram várias as vezes que olhei para o céu, da janela de casa, e vi-o cinzento, sabendo que começaria a chover a qualquer momento. Sabia, no Inverno, que o frio húmido congelaria até as minhas narinas e que afastar-me da ventoinha durante as tardes de Verão para sair à rua seria o equivalente a um suicídio. Depois, os mosquitos. Não existem mosquitos como aqueles de Pordenone. Dizem que amamos verdadeiramente quando aprendemos a amar os defeitos do nosso companheiro. Terá sido amor? Nunca teria imaginado encontrar numa cidade desta dimensão (50 000 habitantes, sensivelmente), um grupo disposto a acolher todo e qualquer estrangeiro ou pessoa em necessidade de companhia. Diziam saber que não era fácil fazer amigos no norte. Foram os italianos, a história das nações, a anarquia, o melhor café, o sonho colectivo do Porto, as merendas no Tomadini,  a música, sempre a música. O fado, a bossa-nova, a MPB, o jazz  das manhãs, a maldita rtl, o jive, o rock da hora de almoço, as velhas baladas italianas, a semana dos blues.
Foi sobretudo a oportunidade partilhar casa com as pessoas certas. Não havia sensação tão familiar como chegar a casa nos primeiros quatro meses e encontrar a Maria, portuguesa, na cozinha, a contas com o vegetarianismo; ouvir rock espanhol e flamenco todos os fins-de-semana acompanhados pelo trautear incessante da Zulema, o furacão que complementava a minha tranquilidade; as experiências “pseudo-asiáticas-francesas” na cozinha da Elodie, que provavelmente não seriam nada de especial mas eram sempre deliciosas, e o verdadeiro crepe da despedida; os nossos hóspedes, uns da casa, que entravam e saíam quando queriam, outros de uma noite, para desenrascar; os fantasmas que inventamos, aqueles que lá estariam de facto e a companheira de quatro patas que nunca existiu.

Era uma vez uma experiência de serviço voluntário europeu. Intensa e, por isso, fugaz. O tempo passou, diz-me o calendário civil, mas não o sinto. Uma suspensão, como aquela das partituras. Um respirar fundamental. Não tenho conselhos. Quem tem de partir, parte sempre. Só me resta agradecer por tudo, a todos. Até uma próxima.

Blog da Mariana - https://grigiopordenonept.wordpress.com/

quarta-feira, dezembro 06, 2017

An EVS as an experience for Nadejda's life!

Nadejda is 19 years old and she is from Bulgaria. As part of a gap year before starting her studies in the university, she decided to make the difference and start an EVS project in Portugal. From October she is working in ALEM, teaching French and sharing a lot about her culture. Keep reading to discover how the European Voluntary Service can change your life!

Here I am in Lisbon, the city that everyone dreams of. Sometimes I just don’t know what to say and I feel like I am part of a theatrical play. I learn, I grow and I fall in love with this place every everyday!

My EVS experience is just the most beautiful ending of the adventurous year of 2017. After 5 months of intensive travelling , dancing salsa, walking on the streets of Amsterdam, eating mamaliga and camping in the forest of Germany I could say that I got out from my comfort zone  many many  times. The people I met, the places I visited, the music I fell in love with, all of this was a life I never even dreamed on.




Portugal is the 6th country I visited since I turned 19. As I got on the plane and heard Portuguese speech for the first time in my life I knew this is going to be an experience for life. Before coming here I didn’t know anything about Lisbon  and I could only say hello in Portuguese but I knew that this was going to be the best part. Despite of  my full unknowledge about the place where I was going to spend the next 9 months of my  life I was introduced to the details of my project which was really inspiring from the moment I was selected to participate. I was lucky enough to be hosted by Rota Jovem who treats me more like a friend rather than just a volunteer. My mentor is the best and she is full of ideas about going to places I never heard of.
The voluntary work is about helping and about exchanging experiences, it is about learning about the others but also about yourself. Even with the fact that I still don’t know all the names of the people in the places I work I feel I will have amazing time working with them  and I hope they would be happy to work with me. I feel I am growing up every day. I love the moments when children laugh at my Portuguese pronunciation and their enthusiasm to teach me how to say the colours of their drawings and the shapes in them. I also love their interest about learning and the energy of the old people dancing. I think they all inspire me and make me feel like I took the best decision coming here.




Maybe  I am ‘’only 19’’ and  I don’t have any experience and maybe sometimes all I can say is <<Tudo bem>>. Maybe I have days in which I feel exhausted of working and long evening walks and  days I am totally confused because of the language barrier I faced but  I am glad I am here. I am glad I am working with this people,  I am glad I am living with my  crazy roommates which sometimes make too much noise but I still love them and I am glad my family has always given me the freedom to choose my own way. This 9 months for me would be a lot more than just a voluntary work, I already started rediscovering myself, I met a lot of people and I am receiving support from my organization.  I feel I also got more dedicated on the studies I am going to take next year. I really hope that the time would not pass that fast because I want to live every moment!



quarta-feira, novembro 29, 2017

Cá estou eu, Lisboa!

A Domiziana tem 22 anos e muitas histórias para contar. Siciliana de Messina, já morou no Chile e agora está connosco em Portugal para fazer o seu SVE na ALEM. Ela, que acredita mesmo na luta pela inclusão social e na igualdade entre todas as pessoas, está a trabalhar nas escolas do bairro da Ajuda em Lisboa com o objectivo de superar todos os desafios que tem pela frente e deixar a sua marca daqui a 8 meses.

O meu primeiro encontro com Lisboa aconteceu implicitamente há alguns meses atrás, ao voltar da América Latina, quando eu me tinha prometido a mim própria que aprenderia Português com o propósito de poder voltar áquele continente maravilhoso e ter a capacidade de poder comunicar em todos os países. Quando acabei o meu curso na universidade, uma coisa era certa: eu queria arriscar, ver quais eram as minhas habilidades e também os meus medos. Assumir a responsabilidade de sair da minha zona de conforto e ter a certeza do que será o meu futuro. Desta forma Lisboa chegou, de repente. Eu conheci uma associação maravilhosa em Palermo, CEIPES, e graças a eles um projecto, “Strengthen the bond of inclusion”, que se desenvolve com um SVE - Serviço deVoluntariado Europeu de 9 meses de duração em Lisboa.

E cá estou eu!

Numa viagem em dois aviões e com tantas horas de duração como para fazer invejar qualquer ida a outro continente foi como há já dois meses eu cheguei à Lisboa "sedutora", como alguém a definiu recentemente. Aqui qualquer ângulo se torna uma descoberta e fica difícil não considerar a ideia de nunca parar para dormir. Lisboa é as sete colinas e os dois lados separados do estuário do Tejo, o que está a faltar para não me sentir em casa? (eu sou italiana, e em Roma também temos sete colinas, e siciliana, onde temos também o Estreito de Messina).


O meu projecto de voluntariado está relacionado com a inclusão social. Quando há uns meses atrás eu terminei o meu curso estava indecisa e não sabia se continuar a estudar para aprofondar melhor naqueles temas que sempre me tiveram curiosa do ponto de vista teórico ou se pôr em prática os conhecimentos adquiridos e, também, descobrir quais eram as minhas habilidades práticas e de adaptação a situações diversas. A alternativa a este projecto teria sido o começo dum mestrado em Geografia que fornecer-me-ia as bases para entender como a construção das grandes cidades pode influenciar a nível económico e social uma população. É por causa disto que é muito interessante para nós não olharmos a cidade com olhos de turista. Tenho a possibilidade de estar a trabalhar na parte "escondida" desta cidade sendo protagonista da luta contra a exclusão, a segregação e a ideia de uma divisão social inexorável, contribuindo à ideia de que ninguém é inferior ao outro e que não é necessariamente um contexto social que vai influenciar a formação, o crescimento, a vida ou as possibilidades duma pessoa. É muito agradável ver os jovens rebeldes (e não só) com muita vontade de se expressar e cheios de recursos apesar das poucas pessoas que acreditam neles. E é uma grande honra ter a possibilidade de consciencializar sobre isto.



Do outro lado, estou a viver numa zonas mais centrais de Lisboa junto com cinco companheiros de viagem vindos de cidades europeias diferentes: a Andrea de Santiago de Compostela; a Cira de Barcelona; o Diego de Madrid; a Nadejda de Sofia e a Ileana de Bucareste. Isto é para mim uma oportunidade incrível de interculturalidade: o confronto diário com ideias diferentes, com modelos de educação diferentes e com diversos estilos de vida é para mim uma fonte de inspiração e de crescimento pessoal. Isto para além da possibilidade de me deslocar facilmente e para diariamente comparar as diferenças entre "esta Lisboa e a outra", considerando que todas as estruturas onde nós trabalhamos estão na periferia de Lisboa.


As organizações nas quais nós trabalhamos são principalmente jardins de infância, escolas e associações. Com a ALEM -Associação Literatura e Mediação, quatro de nós complementamos o trabalho dos professores através da proposta de laboratórios e workshops que principalmente pretendem estimular o interesse pelo estudo dos alunos e o conhecimento por parte das instituições da arte, do desporto e da música como elementos facilitadores da aprendizagem. Também é importante o trabalho de estimulação do movimento especialmente na Fundação LIGA, que se ocupa de “procurar responder às necessidades e interesses de cada utente, (...) com condicionamentos da sua funcionalidade física, social e/ou cultural, (...) com programas abrangentes, sempre com laboratórios artísticos.”

O primeiro mês foi sobre de tudo um mês de observação. Os meus companheiros e eu visitámos todas as estruturas, do Bairro da Ajuda com o jardim da APIA (Associação de Protecção à Infância da Ajuda), a Associação de Actividades Sociais do Bairro 2 de Maio e a Fundação LIGA, até o Bairro da Outurela com a Escola Básica Sophia de Mello Breyner, onde estão sobretudo os meninos jovens das comunidades africanas e ciganas de Lisboa. Este mês certamente foi útil para entender as nossas preferências e para reflectir sobre quais das nossas propostas poderiam ser mais oportunas para as diferentes estruturas. Para além disso, nós também fazemos parte de seminários e conferências, onde nos informaram sobre o conceito de educação de 360 graus e sobre métodos alternativos como a arte,em tudas as suas facetas. Graças à Rota Jovem e ao SVE - Serviço de Voluntariado Europeu, todos nós temos a possibilidade de ser apoiados em qualquer questão e de fazer parte dos vários projectos que eles desenvolvem na associação.


A escolha das estruturas nas quais trabalhar esteve baseada no nosso interesse pessoal. Eu decidi apontar principalmente para algo que eu nunca tinha experimentado e apesar de eu fazer parte em projectos diferentes em instituições diferentes, o meu trabalho desde o fim do mês de Novembro está focado em ajudar nos jardins de infância e aos jovens com deficiência, mas também num projecto de cinema com os meninos da escola básica.
O objectivo do projecto é não apenas transformar a nossa contribuição numa inclusão social mais sólida e possível mas também concretizar a máxima do “do ut des” enquanto se trata duma ajuda mútua.


Este projecto e esta experiência são então o começo duma descoberta pessoal, do conhecimento da cidade das mil descobertas, com edifícios vazios mas cheios de histórias e a vontade de lutar por aquilo que merece a pena. Com portas meio abertas das quais sai a voz duma mulher acompanhada pela maravilhosa viola de doze cordas. Significa a possibilidade de apresentar as culturas diferente na minha própria casa, com os meus companheiros de viagem e com as diferenças entre todos nós, até a mistura maravilhosa de culturas que eu encontro novamente nas escolas junto com as comunidades africanas e ciganas.


sexta-feira, novembro 24, 2017

Descobrindo o trabalho dos voluntários, entre peixes e meninos

O 22 de Novembro o Raul Pinto, o professor da Biologia da Escola Básica Sophia de Mello Breyner fez uma aula diferente. Não foi na escola, não foi com mesas e cadeiras. Foi uma aula no Oceanário! Teria sido muito lindo que todos os voluntários SVE tivessem estado presentes, mas o grupo estava na Formação à Chegada em Guimarães e apenas a Nadejda e eu conseguimos ir. Aproveitei para saber um pouco mais do trabalho dos nossos voluntários nas escolas parceiras da ALEM.
À uma e meia na porta do Oceanário de Lisboa estavam moitas turmas. Enquanto procurava a Nadejda encontrei um grupo de meninas que sabia que eram daquela escola. Perguntei diretamente pelo professor e uma das meninas berrou: "- Professora! As estagiárias!". Não veio a professora, mas todos os alunos a correr. Alguns perguntavam onde estavam os outros voluntários, outros brincavam tentando  falar em Inglês. “I'm a good Bulgarian” “Que fala Bulgariano, Bogarian? Perguntavam pela Nadejda. Uma bem-vinda bem engraçada! Pouco mais tarde chegou o Raul e entramos no mundo dos peixes.

“Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar”. Uma frase da poetisa que dá nome a escola, para começar a visita. Esta poetisa acompanha-nos durante toda a visita com poemas que os alunos e o Raul vão lendo. Entre explicações e aquários aproveitamos para falar com os meninos. Depois do aquário, das mantas e dos peixes Luas um aluno vem ter com a Nadejda para falar com ela. Ele pergunta sobre os oceanários da Bulgária e mostra interesse por saber se no país dela também há e se são grandes como aquele.
Enquanto olhamos para uma janela do aquário central, passam tubarões e as barracudas bem quedas nos observam, tenho as primeiras opiniões dos alunos sobre os voluntários. “Gostamos muito dos voluntários, eles ensinam-nos e nós ensinamos-lhes a eles coisas sobre Portugal, palavras em Português…”, “temo-nos ligado muito a eles”.

Depois de passar pelo Oceano Atlântico norte, pelo Antártico e pelo Pacífico temperado os alunos começam a estar cansados. E quando chegamos à parte final, no Índico Tropical, entre pequenos peixes de colores, polvos e caranguejos gigantes, um grupo de meninas dizem-me mais coisas bonitas sobre o Diego, a Domi, a Nadejda e a Ileana. “São simpáticos, gostam de ajudar, são prestáveis e são muito sociáveis.”
Todo o que eles dizem são coisas positivas. Alguns explicam-me as actividades que fazem com eles. Uns gostam da maneira em que Domiziana tentou fazer calar os alunos durante o filme “Hotel Ruanda”, ela já tem ganho o respeito deles pela sua forma de fazer muito calma e respeitosa. Outros falam da actividade que fizeram com a Ileana e com o Diego sobre a cultura romena, dizem que foi uma boa actividade para incentivar os alunos a conhecerem outras culturas. “Vetêment, robe, chemise, chaussettes”. Uma menina mostra o vocabulário que a Nadejda lhe tem ensinado nas aulas de Francés. Muitos alunos falam também das aulas de cozinha do Diego, gostam do gesto dele, de aprender doutra maneira, e alguns que ainda não estiveram com ele dizem que gostariam de ir para cozinha aprender com ele.
Depois de todas as opiniões chegamos ao fim do oceanário, mas aqui não acaba tudo, ainda fica a visita à exposição temporal sobre as florestas submersas. E então aproveito para saber o que é que os professores pensam. “A sua ajuda é muito importante, sobretudo nesta escola”, diz a professora. Raul, que acaba de ser pai e portanto não tem estado muito tempo com os voluntários, tem no entanto uma opinião firme. “É importante a sua ajuda porque ensinam doutra maneira, eles mostram a educação não-formal, e têm qualidades que o professor não tem”.

O fim da visita chega às quatro da tarde quando toda a turma não pôde andar mais e estão todos sentados no chão. Uma frase, “Atlântico, Pacífico, Índico, Antártico, Ártico: Um só Oceano”, fai-nos lembrar que ainda que todos somos de diferentes lugares (Bulgária, Roménia, Itália, Espanha e Portugal) somos todos humanos deste mundo. Uma bonita frase para acabar nosso dia.

quarta-feira, novembro 22, 2017

Os desafios do Diego em Portugal

O Diego é de Madrid e embora tenha chegado a Portugal há apenas um mês é um bom conhecedor da cultura deste seu país de acolhimento. Em Espanha combinou as aulas na Faculdade de Economia com cadeiras sobre literatura portuguesa e agora está pronto para trabalhar com crianças e jovens no marco do seu projecto do Serviço Voluntário Europeu, "Strengthen the bond of inclusion". Aos 28 anos, Diego tem ainda muitos desafios pela frente na ALEM durante os próximos 9 meses!

Quando uma pessoa acaba a faculdade enfrentas-se a um universo grande. De repente é empurrada para uma realidade à que não está habituada. O ritmo da sociedade leva-a para uma trincheira sem sequer ter balas na recâmara para as usar no casso de ela ser acurralada.

Vista esta situação de desassossego decidi apanhar um caminho secundário. Há tempo que queria morar em Portugal, país do que gosto imenso e do que há poucos anos que comecei a estudar a sua língua e a descobrir a sua cultura, e percebi que a melhor maneira de cumprir os meus desejos seria através de um projeto de voluntariado. Isto permitir-me-ia combinar a minha imersão na cultura portuguesa ao mesmo tempo que poderia realizar lá (cá) um projeto de ajuda à comunidade. Sendo assim, candidatei-me ao projeto "Strengthen the bond of inclusion" sem dúvida nenhuma.

Nunca tinha vivido uma experiência Erasmus e a minha cabeça começou a imaginar todas as combinações possíveis. Finalmente fui selecionado para este projeto de integração social das crianças através da literatura e da cultura em Lisboa, uma combinação longe da minha formação acadêmica, mas que agora sinto que está a orientar a minha futura vida profissional.

Lisboa oferece atualmente uma grande torrente de cultura e vida social, é uma cidade em efervescência e isto faz com que seja para mim uma das melhores opções onde poder fazer um voluntariado europeu. Tem fado, Português, surf, capoeira, boa comida, é acessível e próxima, assim que está a ser uma grande aventura descobri-la.


O grande desafio durante este primeiro mês tem sido conhecer as minhas colegas de casa e de vida lisboeta, cinco raparigas de origens variados: Cira da Catalunha, Andrea de Santiago de Compostela, Domiziana da Sicília, Ileana da Roménia e Nadejda da Bulgária. Cinco personalidades diferentes que seguramente me irão ajudar a revisar as minhas ideias e os meus medos e, claro, ajudar-me-ão também a evoluir a nível pessoal.


No que diz respeito ao projeto, ele desenvolve-se em várias escolas nos bairros de Belém e Ajuda, com estudantes que carecem das mesmas oportunidades que nas outras escolas. Nestes centros alunos de diferentes culturas partilham as aulas nem sempre nas melhores circunstâncias económicas, sociais ou familiares. Por causa disto a nossa função consiste em atingir o objectivo de que as crianças percebam a importância das escolas nas suas vidas, a importância que supõe a cultura como elemento de mobilidade social. Já conhecemos algumas turmas com as quais vamos trabalhar e é difícil descreve-las. A energia destes alunos é imensa, em muitos deles traduz-se em barulho e desatenção o que leva a dificultar o controlo da aula. É uma questão complicada de gerir, mas sei que esta energia se pode canalizar no sentido apropriado, nem sempre eles têm culpa do que está a acontecer.

Vamos ver como correm os próximos meses, tenho a certeza que o trabalho com os estudantes será o meu próximo desafio!



quarta-feira, novembro 15, 2017

Dois meses portugueses

Eu sou a Cira e há quase 23 anos que o Koumera e a África decidiram começar a escrever as linhas da minha história. Esta história começa um 20 de Dezembro num pequeno apartamento no bairro de Horta (Barcelona), onde me esperavam uma irmã e uma avó fantásticas prontas para acompanhar e apoiar todos os capítulos da minha vida. Depois chegaram mais irmãos, sobrinhos, tios, primos… A minha história acabava apenas de começar, com os meus primeiros passos em casa, na aldeia, em Senegal, na escola, no esplai. Passos todos que me serviram para abrir novos caminhos e desde então eu já não parei de andar. No Xangó (o meu esplai) descobri que não tinha apenas pés, mas também asas para sair voando. Então eu quis usá-las para começar a explorar novos horizontes e pouco a pouco comecei a coleccionar aventuras: Berlim, Itália, Irlanda, França, o Estartit… E há dois meses atras começou o último capítulo do meu livro de aventuras. LISBOA.



O 12 de Setembro depois de despedidas, da festa da Catalunha e de um pouco das festas do Bairro de Horta, é hora de esvaziar o quarto e de pôr todas as minhas coisas dentro duas malas para começar uma nova etapa no outro lado da Península.
Um voo da TAP Portugal de duas horas marcou o início da aventura. Sem saber o que me esperava nem onde dormiria aquela noite, o meu corpo estava cheio de sentimentos: tristeza, alegria, ilusão, medo… Mas acima de tudo, de nervos e de vontade de conhecer tudo o que me esperava em terras atlânticas.



Chegar ao aeroporto e encontrar a Ana e a Elena (caras que já tinha conhecido na minha breve estadia no intercâmbio internacional “Youth Embassadors for a Change” em Maio passado) fiquei tranquila. Desta vez falaram Português e não percebia nem a metade das coisas que diziam, mas já comecei a sentir-me em casa. E agora sim, aqui começa a minha super-aventura que não começa bem em Lisboa, mas entre Cascais, São João do Estoril e muitos outros destinos.



Antes de que eu pudesse dizer que tinha uma casa, dormi na casa da Gina, uma mulher muito espiritual, amante do Caribe, das danças de salão e da medicina alternativa. Naquela casa pequena, de dois andares, eu tinha um quarto com um banheiro sem uma porta (digo banheiro e não casa de banho) na frente da cama, a minha primeira cama.

Durante a estadia em São João, tive a honra de ter como vizinha outra voluntária, a Pierina, uma peruana divertida e amorosa que começou a abrir-me passo pela cidade de Cascais, pela Rota Jovem (a minha organização de acolhimento) e entre os voluntários.

Com a Pierina estive poucos dias, mas os suficientes para fazer mil coisas, como passear em bicicleta, ir ao festival de iluminação de Cascais, descobrir a Bodeguita (um pequeno bar com música e bebidas cubanas), conhecer o Luís, ir às compras... E muitas outras coisas que fizeram que a Pierina se tornasse uma nova amiga.



Depois de muitos passeios pelo paredão de Cascais para São João com o pôr-do-sol de fundo, a minha viagem muda drasticamente. Um autocarro cheio de jovens voluntários portugueses entre os que também estou eu foi dirigido para Odemira, uma cidade na parte rural do Alentejo. Ali havia um colchão à minha espera no chão dum templo espiritual de uma aldeia ecológica (a minha segunda cama). Naqueles dias no Centro Ambiental de Cabaços vivi com o Manu e com quase 25 jovens de bairros sociais da região de Cascais. O Manu parecia uma personagem de conto, um idoso cheio de histórias e sabedoria, que tinha viajado por todo o mundo e que agora tinha criado essa pequena cidade para convidar jovens e famílias a viver com ele. Os 25 jovens carregados de energia partilharam durante quatro dias as suas habilidades para tentar diferentes estilos de danças, acrobacias, malabarismo, entre outros.
Uns dias longe da capital para conhecer jovens portugueses com uma vida muito diferente da minha; para começar a pronunciar as minhas primeiras palavras no idioma deles; para partilhar noites de fogueiras e violão com famílias israelitas; para construir uma domus geodésica; para rir e para fazer novos amigos.



Aquela semana cheia de experiências acaba com um voo de avião para casa. Dia 30 de Setembro, o aniversário da minha irmã e o dia anterior a uma votação importante para a minha terra, voltei a casa para cumprir com as minhas responsabilidades de irmã e de catalã.
Essa viagem marcou um antes e um depois. Um fim-de-semana cheio de sentimentos, para voltar e instalar-me por fim na capital portuguesa.



Dia 2 de Outubro a Elena estava de volta para esperar-me no aeroporto, desta vez com uma das minhas futuras colegas de casa, a Domi. Desta vez, não íamos para São João, mas para um albergue lisboeta, onde a minha terceira cama estava à minha espera, para partilhar quarto com mais dois voluntários: o Diego, de Madrid e a Nadejda, de Sofia. No dia a seguir, conheci a Andrea, galega, e a Ileana, romena. Os seis juntos começámos a descobrir a cidade e, pouco a pouco, fomos ao nosso futuro apartamento. Em três dias já poderíamos inaugurar a nossa casa dos Restauradores e eu estreei a minha cama atual (a quarta). Uma semana a montar beliches, a colocar as coisas no lugar certo e a arrumar tudo para começar a sentir-me em casa.



 E novamente, a minha viagem levou a uma nova bifurcação com destino no norte de Portugal, em Guimarães, onde os portugueses dizem que este país nasceu. A minha quinta cama num quarto partilhado com uma italiana e uma finlandesa, num albergue onde estivemos 25 voluntários do SVE para fazer o On-Arrival Training, uma formação para aprender mais sobre os projetos dos outros voluntários e para falar sobre nossas condições como voluntários europeus.

Finalmente, depois daquela semana voltei para a minha casa e para o qual já eu digo o meu quarto, partilhado com o Diego, e começo a minha nova rotina. As aulas de Português às segundas, quartas e sextas-feiras. As aulas de capoeira às terças e quintas-feiras. O forro às quartas e as visitas aos mercados de frutas e artesanato nos fins-de-semana. Os jantares e as tardes da guitarra com os novos amigos portugueses e com os amigos catalães (a Mònica e o Marcel) que nos encontramos de volta aqui.


E todos os dias não feriados ir à Rota, a minha associação de acolhimento. Na Rota, por enquanto, ajudo com diferentes tarefas a Ana, a Elena, o Alex e a Bea, mas já tenho que começar a pensar sobre as atividades que eu quero fazer aqui com os jovens. Agora já posso dizer que a Rota é a minha segunda casa porque eu trabalho num ambiente muito agradável. Os voluntários e a malta da direção vêm para cumprimentar e muitas pessoas na rua vêm também perguntar coisas, estudar, lanchar… Há um ambiente muito jovem e o almoço é o meu momento favorito, onde todos nós nos sentamos a conversar.
 
Depois de muitos dias, posso já dizer que na cidade das sete colinas entre pores-do-sol, pastéis de nata, fados, ladeiras e carros eléctricos, sinto-me em casa!



quarta-feira, novembro 08, 2017

Continuará...

A Andrea é galega e chegou há um mês a Portugal para começar o seu projecto do Serviço Voluntário Europeu, "Strengthen the bond of inclusion". Durante nove meses irá dar o seu melhor no IN-Mouraria, com a luta pela inclusão social como objectivo e com muitas coisas ainda por descobrir nesta que é, já, a sua segunda casa. 

E parece que está longe, e ao mesmo tempo perto, o 1 de Outubro, quando voei desde a minha terra galega (Santiago de Compostela) a Lisboa para iniciar o SVE com muitos nervos e com muita vontade. Nervos por saber se os meus bons sentimentos finalmente iriam ser confirmados, mas também con toda a vontade de absorver todo o bom que a experiência pode dar.
Sim, porque o SVE não é apenas o projecto de voluntariado, e isto é algo do que és totalmente consciente quando dás o primeiro passo no país. É também uma oportunidade. Este mês veio como um furacão carregado de pessoas, sensações e oportunidades. No momento certo.


Outubro também chegou desde Messina, Barcelona, Madrid, Sófia e Bucareste, com uma mudança incluída, para habitar “Casa Glória”, carregada de cereais de estrelas (obrigada à doação! Tornámo-nos adictxs!). De natas, natas e Pastéis de Belém, de " Olha aqui! ", de "yellow river", de pores-do-sol, de passeios sozinha e acompanhada e de felicidade... muita felicidade.


E no meio de toda a cidade, o In-Mouraria, um projeto do Grupo deAtivistas em Tratamentos (GAT) e também a minha organização de acolhimento. Um centro de baixo limiar nas adições e um espaço onde sobretudo as pessoas podem ser o que são, sem serem julgadas. 
Sem dúvida, o que destaco é a paixão da equipa pelo seu trabalho, assim como a calorosa receção dos utentes desde o início. Estar no In-Mouraria reaforça o quanto eu gosto de trabalhar com pessoas e para as pessoas e o orgulho que sinto de ter estudado Educação Social.


E tu Lisboa, tens os mais belos pores-do-sol que já vi, cheios de laranjas e amarelos que atingem o coração. Estás cheia de becos, de histórias em cada esquina, de antigo e de novo. De colorido, de arte, de saudades. De calçadas perigosas (obrigada por existires, seguro médico!). De paz no caos, de condutores a discutirem quem é quem tem razão, de música... És muito mais do que tuk-tuks em todos os lugares... já és minha casa e já me fazes sentir em casa.



Às vezes, no meio da cidade, penso "que sorte". E ainda fica muito mais... Obrigada Lisboa, és bem fofinha!