segunda-feira, junho 12, 2017

Um mês de SVE... no Equador!


 Além de variada culturalmente, esta região é também muito diversificada biologicamente. Aqui, tudo tem vida. Os processos biológicos ocorrem com maior rapidez devido às altas temperaturas e à elevada humidade existente no ar… aqui a vida transpira!
O meu projeto de voluntariado está relacionado com agricultura biológica. É muito interessante trabalhar com a terra num lugar em que existe tanta vida. As plantas crescem mais rapidamente, tal como as pragas.
É curioso ver uma tarântula a caminhar pelo campo de futebol, e ninguém se preocupar com isso até porque, ao contrário do que eu pensava, não é um animal tão perigoso, porque afinal o seu veneno não mata, apenas é doloroso. É muito agradável acordar ao som  de  uma Arara-canindé  pousada  num  cabo  de  eletricidade  em  frente  da  minha habitação.
 
 Estou a viver numa comunidade rural. Os vizinhos, as crianças e os cães têm uma vida um pouco dura. As crianças vivem de uma maneira mais livre e são, por isso, de certo modo mais independentes… os cães imploram por comida com os ossos a sair pela pele. A província de Pastaza é a mais pobre de todas províncias equatorianas. As pessoas vivem de um modo muito simples e parecem ser felizes assim.
 
Passo a maioria dos dias aqui na comunidade. As crianças de manhã vão à escola, e voltam pela hora de almoço, esperando ansiosamente que as minhas colegas voluntárias abram a biblioteca. Eu, por vezes, estou na biblioteca planificando coisas, outras vezes estou pelo viveiro trabalhando na agricultura e, especialmente nos últimos dias, trabalhando com o composto que se está pela primeira vez a fazer aqui. Este composto vai ser utilizado para adubar o solo da estufa, e assim ajudar a produzir alimentos para a comunidade.


Um dos objetivos deste projeto é incentivar a comunidade a produzir os seus alimentos, e produzi-los duma maneira saudável para eles e para o meio ambiente. Tem o objetivo de promover a sustentabilidade ambiental e a auto-suficiência, para assim amenizar a pobreza local existente.
Por vezes, nestes meus trabalhos de agricultura, tenho a ajuda alegre das crianças. À terça-feira existe a Minga, que é um trabalho comunitário que tenta envolver as comunidades vizinhas neste projeto. Durante 3 semanas, na Minga, teve lugar um interessante Workshop com uma profissional em permacultura, que nos ajudou e orientou imenso neste duro trabalho de agricultura num clima tão intenso.


Às segundas-feiras temos tido a presença de umas queridas senhoras equatorianas que nos têm ensinado a cozinhar e dado a provar pratos tradicionais do Equador, tendo sido os meus preferidos os "Bolones de verde" e "Seco de pollo".

Para mim, esta experiência tem sido uma viagem... uma viagem por lugares e pessoas diferentes e bonitas e, mais que isso, tem sido uma viagem no Tempo. Tenho a impressão que existem algumas parecenças entre a presente realidade de aqui e a realidade do meu país há 50 anos atrás.
Etimologicamente, em inglês travel deriva do francês travail, que por sua vez tem origem no termo latino tripalium, que designa um instrumento de tortura. Viajar é partir rumo ao desconhecido e, dessa maneira,  perder a inocência”,  perder o nosso  conforto  e as nossas referências.
A viagem obriga-nos a assumir o desconforto, a solidão e a interromper a vida a que estamos habituados num determinado lugar. Viajar é essencialmente descobrir, descobrimo-nos a nós e o reflexo das nossas vidas nas etapas da viagem, assim como descobrirmos o outro sem o conforto das referências que nos são imediatas.
Não é só importante o que se vê, mas sim como se vê e o processo de transformação mental que ocorre e nos transforma.
Ana Luísa Sousa - Voluntária no Equador através do Projeto Global Recognition

segunda-feira, abril 10, 2017

SVE: não penses, faz!

Descobri o SVE mesmo no limite da idade de fazê-lo, mas foi das descobertas mais incríveis. Na altura precisava de experiência com idosos para estar mais (e melhor) preparada para começar o meu projecto pessoal em Portugal de prestação de serviços a idosos. Além de querer ganhar experiência, queria perceber se havia outras formas de o fazer, nada melhor que ir fora do país para descobrir, e ali estava a oportunidade mais completa de todas.

Tinha estado em Itália à 10 anos atrás (a fazer Erasmus no último ano da licenciatura), por isso quando vi que era uma oportunidade de trabalhar com idosos e em Itália decidi de imediato candidatar-me. O italiano não estava tão esquecido como pensei. Depois de aterrar percebi que as palavras iam regressando aos poucos. Tendo essa vantagem, e estando pronta para começar, acabei por aceitar começar a trabalhar logo no segundo dia após a chegada. 


Foram 9 meses incríveis! Toda aquela zona envolvente a Forlì, Bolonha, Ravenna, Rimini é linda, come-se muito bem e as pessoas são super acolhedoras e simpáticas. Fiquei surpresa com todas as condições (muito boas!) que nos eram proporcionadas, do apartamento às ajudas com a língua e a alimentação.
 



Mas, mais importante que isso, percebi que tinha algumas ideias erradas e que eram alguns dos principais impasses para o começo do meu projecto pessoal. A maior delas? Apesar de eu, e a minha companheira de negócio, acharmos que havia uma forma viável de começar, eu não me sentia muito à vontade com a ideia, porque teria que cuidar de idosos em situações de maior dependência de forma muito directa. Não me agradava porque sempre achei que ia sentir-me destroçada por vê-los assim, não ia conseguir ser-lhes útil por não conseguir acompanhá-los, cuidar deles. Achava mesmo que perto deles só ia ter vontade de chorar pela situação em que estavam, por ter pena, ainda que soubesse que trabalhar com idosos era algo que me preenchia.

Tive que fazer mais de 2200 quilómetros para descobrir que não era nada assim, muito pelo contrário! O que descobri? Não sinto pena. Não sinto vontade de chorar. Não me sinto destroçada. Qual o meu primeiro instinto perto de um idoso doente? Ser-lhe verdadeiramente útil! Sinto vontade de ajudar, de cuidar. Nunca pensei sentir-me tão à vontade, e capaz, perto de idosos com maior dependência, sem memória e já sem a maior parte da consciência de si, dos outros e do seu mundo anterior.




A grande mudança depois deste projecto não foi apenas a minha perspectiva sobre o trabalho com idosos, mas a maior consciência de mim em relação a eles. Já tinha o meu projecto, já tinha a ideia de que gostava de trabalhar com idosos. Pensei que ia a Itália para ficar segura disso, ou descobrir que afinal não era bem assim. No entanto, foi muito mais que isso… bem mais!

Voltei a Itália para descobrir a minha vocação!

Bom SVE a todos! Sim!!! Não penses duas vezes. FAZ!!!