Mostrar mensagens com a etiqueta voluntários. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta voluntários. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, junho 21, 2018

Um algarvio em Barcelona

Oláááá! Sou o David Mota, algarvio de SVE em Barcelona! Nem sei bem por onde comece, talvez pelo início...

Pois cheguei no dia 2 de Outubro, os meus colegas de Esplai foram receber-me ao aeroporto e no segundo dia levaram-me para as ruas em plenas manifestações e greve geral por toda a cidade. Recordo-me de bandeiras estreladas pela independência da Catalunha, gente até ao horizonte, políticos que tinha visto na TV em dias anteriores. As manifestações foram pacíficas, pelo menos nesse dia, as lojas que estavam abertas iam sendo encerradas pela multidão, a policia vigiava de longe e o helicóptero era presença constante. "ELS CARRERS SERAN SEMPRE NOSTRES" era o grito de luta catalão que se ouvia por todas partes como se de uma onda sonora que percorre quarteirões se tratasse. Digamos que recebi uma boa dose de catalanidade mal tinha chegado.

Logicamente não senti um grande choque cultural, pois não são assim tããão diferentes de nós, e ainda menos para alguém que cresceu na fronteira entre Portugal e Espanha e consome bastante da sua cultura. Ainda que em certa medida "esto es Catalunya, no España" e seja como for é um facto que existem diferenças para além do idioma. Por um lado sim que entendo a vontade de uma independência perante o Estado espanhol, derivado de uma serie de diferenças culturais, legislativas e de um desajuste financeiro na distribuição regional. Ainda assim, esta não é nem de perto a minha luta, sendo eu do Reino dos Algarves esta vontade também se assemelha, ainda que a autonomia regional esta muito mal compreendida e fora dos temas a serem abordados tanto em politica como na sociedade...

Tive a sorte de arranjar um quartinho humilde, bem no centro, e de dividir a casa com uma família do Equador muito simpática. E pouco a pouco fui descobrindo como funciona a estrutura da associação que me acolheu, Esplac-Esplais Catalans. Trabalho três dias por semana no escritório no centro, onde vou dando apoio logístico, criando alguns vídeos e um que outro artigo em que possa juntar os meus conhecimentos de arte e cultura urbana aliado à educação não formal. Para além deste trabalho, dois dias por semana subo a Guinardó, onde tenho um grupo de monitores (com os quais criei uma forte amizade) e o meu grupo de crianças com as quais todos os fins de semana fazemos atividades. Estas atividades estão muitas vezes relacionadas com as problemáticas atuais e tentamos transmitir valores e ideais humanistas através de jogos, debates e diferentes dinâmicas, e de tempos a tempos fazemos também excursões e acampamentos. 


Fui recebido muito bem e sinto-me acolhido no Esplac, onde procuraram que as minhas tarefas fossem de acordo com a minha formação e dão-me liberdade de gestão de horários no caso de necessitar mudar algo. Por Guinardó encontrei uma família. Em Torxa a media de idade é de 21 anos, porém estes jovens são tão conscientes e participativos na comunidade e na educação que por vezes esqueço a "pequena" diferença de idades. Eles são uma excelente fonte de aprendizagem, sobretudo a forma como se coordenam para que o Esplai funcione. Para além desta gente tenho um grupo de crianças dos 10 aos 13 anos também muito dinâmico do qual estou "in love"! De início era "el portugués", agora já soc "el Mota" :) Como em todos os grupos, tenho rebeldes, curiosos, preguiçosos e um pouco de tudo, mas não podia estar mais grato por estes miúdos que me enchem o coração! Com eles aproveito e desafio-me a transmitir as minhas aprendizagens de cultura urbana e graffiti agregados a uma outra serie de ensinamentos morais e para além disso ajudam-me a e desenvolver o meu Catalão. 


Fiquei impressionado com a estrutura de funcionamento desta associação e com o facto de estar em ambas frentes: a de Esplac, que é a base da associação e que coordenam através dos 10 sectores catalães as questões a nível de financiamento, formações de monitores, campanhas de sensibilização, candidaturas a projecto internacionais e outras burocracias ou eventos/encontros de grande escala; a outra frente é que vai de encontro diretamente com as crianças e os jovens, são os Esplais. Há aproximadamente 105 e apesar da conexão com Esplac cada um coordena-se individualmente, pois cada um tem uma realidade diferente. O Esplai Torxa, no qual temos aproximadamente umas cem crianças e jovens, a estrutura/organização é feita através de voluntariado juvenil e é incrível como se mistura responsabilidade com informalidade, e a dedicação com que estes jovens se empenham neste projecto.



Ao contrário dos portugueses, a população é bastante participativa e apesar de ser uma cidade grande, ao sair do centro (aka parque de diversões para turismo) o sentido comunitário faz-se sentir e os jovens são bastante conscientes do que está decorrendo no país a nível politico e social. Para além de participativos também são contestatários e é impressionante como no mesmo dia em que se declara alguma decisão governamental que o povo não esteja de acordo, as ruas enchem-se de gente e as redes sociais são bombardeadas. Se és jovem e vives por BCN, poderás encontrar em média dois Casal de Joves, dois Casal de Entitats e três Centros Civic Obert por cada bairro e nestes locais terás formações, workshops, encontros juvenis e condições para ensaiar música, produzir arte e desenvolver ou ver exposições. Tudo financiando pelo Município.

No meu tempo livre aproveitei para produzir as minhas peças de arte em cortiça nos dias de chuva, e passear por esta maravilhosa cidade nos dias de sol. A cidade é incrível, primeiro de tudo pela diversidade cultural, por aqui podem-se encontrar todo o tipo de estilos, cores, piercings, cabelos, raças etc... Também skaters por toda a parte e turismo nem se fala (um pouco demasiado até), e Barcelona está plena em arte urbana e galerias ainda que a maioria delas bastante elitistas. Contudo, já tive a oportunidade de realizar duas exposições e estou preparando uma peça XL para a rua. A quantidade de "monumentos" por metro quadrado é imensa e os eventos/exposições/concertos também estão por toda a parte, uma pessoa só se aborrece se quiser. Porém nem tudo é bonito e por outro lado o extremo entre ricos e pobres faz-se sentir bastante, a quantidade de mendigos nas ruas é enorme e o assédio para comprar produtos ou serviços também é extremo principalmente nas Ramblas e na praia, trazendo uma dose de desconforto.

Em modo turismo destaco-vos locais como MACBA, mais pela "movida" que se dá frente do mesmo, plena em skateres e juventude, se fores de noite terás a sorte de encontrar grupos dançando hip-hop. É cultura urbana em estado puro! Também aconselho o skate park de Les 3 Chamineas de Drassanes. Como lugar mais peculiar e curioso destaco-vos o café/loja "El Bosc de les Fades", um lugar onde a decoração e todo o ambiente envolvente te remete para um espaço mágico e onírico. Búnkeres del Carmel é dos melhores sítios para ver BCN em 360º graus, ainda que cada vez mais invadido pelos turistas. Se vos agrada o mundo da fantasia deem um salto ao Labirinto de Encants onde poderão perder-se ao estilo "Alice no país das Maravilhas". Para concluir, uma subida ao Montjuic no canto inferior de BCN e descida até à Zona Olímpica e praça Espanya.

A língua Catalã é algo que se encontra em todas partes, todos os serviços públicos ou educativos são em Catalão, mas as pessoas adaptam-se se não entenderes. O meu voluntariado tem sido 100% Catalão e isso agrada-me muito porque apesar de ainda não o falar já o entendo bem. Não tenho como não, pois com reuniões de três horas em Catalão se ainda não o entende-se estava bem lixado :)

Este SVE permitiu-me afinar alguns pontos educativos que já vinha trabalhando em Portugal e aguçar esta minha vontade de transmitir conhecimento de um jeito não formal. Várias foram as formações que me possibilitaram, desde lingüísticas a técnicas educativas, e também se faz sentir uma abertura para a aprendizagem de assuntos não tão convencionais. Para além do SVE tive a oportunidade de fazer dois Erasmus+ por aqui, que são outra bolha de experiências dentro desta grande bolha que é o SVE e precisava de um outro artigo para falar deles com calma. O facto de estar numa cidade nova trouxe-me a oportunidade de conhecer uma enorme quantidade de gente nova e com um background muito diferente do meu. Fiz uma boa dose de amizades que já me marcaram para a vida e se por fim não ficar por cá seguramente irei voltar a visitar esta gente. Ao procurar por arte encontrei mais gente colorida que me é querida e um movimento de arte urbana muito ativo, e tudo isto começa a criar uma dúvida a respeito de voltar para Portugal. 

De qualquer forma em Outubro terei que dar um salto por Cascais e agradecer pessoalmente à Rota Jovem ;) Muito obrigado Rota Jovem pela oportunidade que me proporcionaram e a Esplac-Esplais Catalans e o Esplai Torxa por me terem recebido tão bem!

quarta-feira, dezembro 06, 2017

An EVS as an experience for Nadejda's life!

Nadejda is 19 years old and she is from Bulgaria. As part of a gap year before starting her studies in the university, she decided to make the difference and start an EVS project in Portugal. From October she is working in ALEM, teaching French and sharing a lot about her culture. Keep reading to discover how the European Voluntary Service can change your life!

Here I am in Lisbon, the city that everyone dreams of. Sometimes I just don’t know what to say and I feel like I am part of a theatrical play. I learn, I grow and I fall in love with this place every everyday!

My EVS experience is just the most beautiful ending of the adventurous year of 2017. After 5 months of intensive travelling , dancing salsa, walking on the streets of Amsterdam, eating mamaliga and camping in the forest of Germany I could say that I got out from my comfort zone  many many  times. The people I met, the places I visited, the music I fell in love with, all of this was a life I never even dreamed on.




Portugal is the 6th country I visited since I turned 19. As I got on the plane and heard Portuguese speech for the first time in my life I knew this is going to be an experience for life. Before coming here I didn’t know anything about Lisbon  and I could only say hello in Portuguese but I knew that this was going to be the best part. Despite of  my full unknowledge about the place where I was going to spend the next 9 months of my  life I was introduced to the details of my project which was really inspiring from the moment I was selected to participate. I was lucky enough to be hosted by Rota Jovem who treats me more like a friend rather than just a volunteer. My mentor is the best and she is full of ideas about going to places I never heard of.
The voluntary work is about helping and about exchanging experiences, it is about learning about the others but also about yourself. Even with the fact that I still don’t know all the names of the people in the places I work I feel I will have amazing time working with them  and I hope they would be happy to work with me. I feel I am growing up every day. I love the moments when children laugh at my Portuguese pronunciation and their enthusiasm to teach me how to say the colours of their drawings and the shapes in them. I also love their interest about learning and the energy of the old people dancing. I think they all inspire me and make me feel like I took the best decision coming here.




Maybe  I am ‘’only 19’’ and  I don’t have any experience and maybe sometimes all I can say is <<Tudo bem>>. Maybe I have days in which I feel exhausted of working and long evening walks and  days I am totally confused because of the language barrier I faced but  I am glad I am here. I am glad I am working with this people,  I am glad I am living with my  crazy roommates which sometimes make too much noise but I still love them and I am glad my family has always given me the freedom to choose my own way. This 9 months for me would be a lot more than just a voluntary work, I already started rediscovering myself, I met a lot of people and I am receiving support from my organization.  I feel I also got more dedicated on the studies I am going to take next year. I really hope that the time would not pass that fast because I want to live every moment!



sexta-feira, novembro 24, 2017

Descobrindo o trabalho dos voluntários, entre peixes e meninos

O 22 de Novembro o Raul Pinto, o professor da Biologia da Escola Básica Sophia de Mello Breyner fez uma aula diferente. Não foi na escola, não foi com mesas e cadeiras. Foi uma aula no Oceanário! Teria sido muito lindo que todos os voluntários SVE tivessem estado presentes, mas o grupo estava na Formação à Chegada em Guimarães e apenas a Nadejda e eu conseguimos ir. Aproveitei para saber um pouco mais do trabalho dos nossos voluntários nas escolas parceiras da ALEM.
À uma e meia na porta do Oceanário de Lisboa estavam moitas turmas. Enquanto procurava a Nadejda encontrei um grupo de meninas que sabia que eram daquela escola. Perguntei diretamente pelo professor e uma das meninas berrou: "- Professora! As estagiárias!". Não veio a professora, mas todos os alunos a correr. Alguns perguntavam onde estavam os outros voluntários, outros brincavam tentando  falar em Inglês. “I'm a good Bulgarian” “Que fala Bulgariano, Bogarian? Perguntavam pela Nadejda. Uma bem-vinda bem engraçada! Pouco mais tarde chegou o Raul e entramos no mundo dos peixes.

“Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar”. Uma frase da poetisa que dá nome a escola, para começar a visita. Esta poetisa acompanha-nos durante toda a visita com poemas que os alunos e o Raul vão lendo. Entre explicações e aquários aproveitamos para falar com os meninos. Depois do aquário, das mantas e dos peixes Luas um aluno vem ter com a Nadejda para falar com ela. Ele pergunta sobre os oceanários da Bulgária e mostra interesse por saber se no país dela também há e se são grandes como aquele.
Enquanto olhamos para uma janela do aquário central, passam tubarões e as barracudas bem quedas nos observam, tenho as primeiras opiniões dos alunos sobre os voluntários. “Gostamos muito dos voluntários, eles ensinam-nos e nós ensinamos-lhes a eles coisas sobre Portugal, palavras em Português…”, “temo-nos ligado muito a eles”.

Depois de passar pelo Oceano Atlântico norte, pelo Antártico e pelo Pacífico temperado os alunos começam a estar cansados. E quando chegamos à parte final, no Índico Tropical, entre pequenos peixes de colores, polvos e caranguejos gigantes, um grupo de meninas dizem-me mais coisas bonitas sobre o Diego, a Domi, a Nadejda e a Ileana. “São simpáticos, gostam de ajudar, são prestáveis e são muito sociáveis.”
Todo o que eles dizem são coisas positivas. Alguns explicam-me as actividades que fazem com eles. Uns gostam da maneira em que Domiziana tentou fazer calar os alunos durante o filme “Hotel Ruanda”, ela já tem ganho o respeito deles pela sua forma de fazer muito calma e respeitosa. Outros falam da actividade que fizeram com a Ileana e com o Diego sobre a cultura romena, dizem que foi uma boa actividade para incentivar os alunos a conhecerem outras culturas. “Vetêment, robe, chemise, chaussettes”. Uma menina mostra o vocabulário que a Nadejda lhe tem ensinado nas aulas de Francés. Muitos alunos falam também das aulas de cozinha do Diego, gostam do gesto dele, de aprender doutra maneira, e alguns que ainda não estiveram com ele dizem que gostariam de ir para cozinha aprender com ele.
Depois de todas as opiniões chegamos ao fim do oceanário, mas aqui não acaba tudo, ainda fica a visita à exposição temporal sobre as florestas submersas. E então aproveito para saber o que é que os professores pensam. “A sua ajuda é muito importante, sobretudo nesta escola”, diz a professora. Raul, que acaba de ser pai e portanto não tem estado muito tempo com os voluntários, tem no entanto uma opinião firme. “É importante a sua ajuda porque ensinam doutra maneira, eles mostram a educação não-formal, e têm qualidades que o professor não tem”.

O fim da visita chega às quatro da tarde quando toda a turma não pôde andar mais e estão todos sentados no chão. Uma frase, “Atlântico, Pacífico, Índico, Antártico, Ártico: Um só Oceano”, fai-nos lembrar que ainda que todos somos de diferentes lugares (Bulgária, Roménia, Itália, Espanha e Portugal) somos todos humanos deste mundo. Uma bonita frase para acabar nosso dia.

quarta-feira, novembro 15, 2017

Dois meses portugueses

Eu sou a Cira e há quase 23 anos que o Koumera e a África decidiram começar a escrever as linhas da minha história. Esta história começa um 20 de Dezembro num pequeno apartamento no bairro de Horta (Barcelona), onde me esperavam uma irmã e uma avó fantásticas prontas para acompanhar e apoiar todos os capítulos da minha vida. Depois chegaram mais irmãos, sobrinhos, tios, primos… A minha história acabava apenas de começar, com os meus primeiros passos em casa, na aldeia, em Senegal, na escola, no esplai. Passos todos que me serviram para abrir novos caminhos e desde então eu já não parei de andar. No Xangó (o meu esplai) descobri que não tinha apenas pés, mas também asas para sair voando. Então eu quis usá-las para começar a explorar novos horizontes e pouco a pouco comecei a coleccionar aventuras: Berlim, Itália, Irlanda, França, o Estartit… E há dois meses atras começou o último capítulo do meu livro de aventuras. LISBOA.



O 12 de Setembro depois de despedidas, da festa da Catalunha e de um pouco das festas do Bairro de Horta, é hora de esvaziar o quarto e de pôr todas as minhas coisas dentro duas malas para começar uma nova etapa no outro lado da Península.
Um voo da TAP Portugal de duas horas marcou o início da aventura. Sem saber o que me esperava nem onde dormiria aquela noite, o meu corpo estava cheio de sentimentos: tristeza, alegria, ilusão, medo… Mas acima de tudo, de nervos e de vontade de conhecer tudo o que me esperava em terras atlânticas.



Chegar ao aeroporto e encontrar a Ana e a Elena (caras que já tinha conhecido na minha breve estadia no intercâmbio internacional “Youth Embassadors for a Change” em Maio passado) fiquei tranquila. Desta vez falaram Português e não percebia nem a metade das coisas que diziam, mas já comecei a sentir-me em casa. E agora sim, aqui começa a minha super-aventura que não começa bem em Lisboa, mas entre Cascais, São João do Estoril e muitos outros destinos.



Antes de que eu pudesse dizer que tinha uma casa, dormi na casa da Gina, uma mulher muito espiritual, amante do Caribe, das danças de salão e da medicina alternativa. Naquela casa pequena, de dois andares, eu tinha um quarto com um banheiro sem uma porta (digo banheiro e não casa de banho) na frente da cama, a minha primeira cama.

Durante a estadia em São João, tive a honra de ter como vizinha outra voluntária, a Pierina, uma peruana divertida e amorosa que começou a abrir-me passo pela cidade de Cascais, pela Rota Jovem (a minha organização de acolhimento) e entre os voluntários.

Com a Pierina estive poucos dias, mas os suficientes para fazer mil coisas, como passear em bicicleta, ir ao festival de iluminação de Cascais, descobrir a Bodeguita (um pequeno bar com música e bebidas cubanas), conhecer o Luís, ir às compras... E muitas outras coisas que fizeram que a Pierina se tornasse uma nova amiga.



Depois de muitos passeios pelo paredão de Cascais para São João com o pôr-do-sol de fundo, a minha viagem muda drasticamente. Um autocarro cheio de jovens voluntários portugueses entre os que também estou eu foi dirigido para Odemira, uma cidade na parte rural do Alentejo. Ali havia um colchão à minha espera no chão dum templo espiritual de uma aldeia ecológica (a minha segunda cama). Naqueles dias no Centro Ambiental de Cabaços vivi com o Manu e com quase 25 jovens de bairros sociais da região de Cascais. O Manu parecia uma personagem de conto, um idoso cheio de histórias e sabedoria, que tinha viajado por todo o mundo e que agora tinha criado essa pequena cidade para convidar jovens e famílias a viver com ele. Os 25 jovens carregados de energia partilharam durante quatro dias as suas habilidades para tentar diferentes estilos de danças, acrobacias, malabarismo, entre outros.
Uns dias longe da capital para conhecer jovens portugueses com uma vida muito diferente da minha; para começar a pronunciar as minhas primeiras palavras no idioma deles; para partilhar noites de fogueiras e violão com famílias israelitas; para construir uma domus geodésica; para rir e para fazer novos amigos.



Aquela semana cheia de experiências acaba com um voo de avião para casa. Dia 30 de Setembro, o aniversário da minha irmã e o dia anterior a uma votação importante para a minha terra, voltei a casa para cumprir com as minhas responsabilidades de irmã e de catalã.
Essa viagem marcou um antes e um depois. Um fim-de-semana cheio de sentimentos, para voltar e instalar-me por fim na capital portuguesa.



Dia 2 de Outubro a Elena estava de volta para esperar-me no aeroporto, desta vez com uma das minhas futuras colegas de casa, a Domi. Desta vez, não íamos para São João, mas para um albergue lisboeta, onde a minha terceira cama estava à minha espera, para partilhar quarto com mais dois voluntários: o Diego, de Madrid e a Nadejda, de Sofia. No dia a seguir, conheci a Andrea, galega, e a Ileana, romena. Os seis juntos começámos a descobrir a cidade e, pouco a pouco, fomos ao nosso futuro apartamento. Em três dias já poderíamos inaugurar a nossa casa dos Restauradores e eu estreei a minha cama atual (a quarta). Uma semana a montar beliches, a colocar as coisas no lugar certo e a arrumar tudo para começar a sentir-me em casa.



 E novamente, a minha viagem levou a uma nova bifurcação com destino no norte de Portugal, em Guimarães, onde os portugueses dizem que este país nasceu. A minha quinta cama num quarto partilhado com uma italiana e uma finlandesa, num albergue onde estivemos 25 voluntários do SVE para fazer o On-Arrival Training, uma formação para aprender mais sobre os projetos dos outros voluntários e para falar sobre nossas condições como voluntários europeus.

Finalmente, depois daquela semana voltei para a minha casa e para o qual já eu digo o meu quarto, partilhado com o Diego, e começo a minha nova rotina. As aulas de Português às segundas, quartas e sextas-feiras. As aulas de capoeira às terças e quintas-feiras. O forro às quartas e as visitas aos mercados de frutas e artesanato nos fins-de-semana. Os jantares e as tardes da guitarra com os novos amigos portugueses e com os amigos catalães (a Mònica e o Marcel) que nos encontramos de volta aqui.


E todos os dias não feriados ir à Rota, a minha associação de acolhimento. Na Rota, por enquanto, ajudo com diferentes tarefas a Ana, a Elena, o Alex e a Bea, mas já tenho que começar a pensar sobre as atividades que eu quero fazer aqui com os jovens. Agora já posso dizer que a Rota é a minha segunda casa porque eu trabalho num ambiente muito agradável. Os voluntários e a malta da direção vêm para cumprimentar e muitas pessoas na rua vêm também perguntar coisas, estudar, lanchar… Há um ambiente muito jovem e o almoço é o meu momento favorito, onde todos nós nos sentamos a conversar.
 
Depois de muitos dias, posso já dizer que na cidade das sete colinas entre pores-do-sol, pastéis de nata, fados, ladeiras e carros eléctricos, sinto-me em casa!



segunda-feira, novembro 13, 2017

Um training course doutra perspectiva

Um mês e meio antes da semana indicada, o Training Course "Don't fear the refugee" começa para os responsáveis do projeto.
O Graziano a propor atividades e a Ana coordenando com ele para encaixar tudo. Chamadas para o local do alojamento,
seleção dos participantes, reembolso de bilhetes, respostas para mil perguntas, dias de não terminar até tarde...
Dias de muito trabalho que no momento parecem triviais mas que são mesmo importantes para o resultado final.


Duas semanas antes, chega o meu momento. Começo a preparar o material necessário para as atividades, vou ao hostel
e à sala de atividades para tirar fotos e ver o espaço, perduro um horário para que os participantes não se percam,
desenho e escrevo cartazes para várias atividades, compro material em falta, preparo os materiais para cada participante:
saco, caderno, lápis, fita, mapa, agenda ...
Três dias antes do início da actividade o telemóvel da Ana fumega! Chamadas para solicitar mudanças nos planos
de programas, perguntas sobre refeições no hostel, visitas de pessoas da Câmara Municipal que querem saber mais sobre
este excelente projeto, cerimônia de entrega de prémios, participantes com dúvidas ou mudanças de vôos…
O dia X é a 25 de Outubro. Viagens para trazer o material da Rota para a sala de atividades.
Arrumação das coisas para acabar tendo uma sala branca com cadeiras em forma de roda. Todo o material colocado,
sacos de presente feitos... Falta apenas uma coisa... Os participantes!


22 pessoas de nove nacionalidades e culturas muito diferentes, pessoas provenientes da Armênia, Itália, Líbano, Portugal, Ucrânia,
Macedónia, Hungria, Catalunha e Grécia viveram nove dias na pequena cidade de Cascais, entre o agradável, pequeno e acolhedor hostel
Nice Way e a sala da escola IES Buisness. Mais duma semana para reconstruir todas as ideias pré-feitas sobre os refugiados e migrantes que todos e cada um dos participantes tinham.
As minhas tarefas no terreno eram tirar fotos, pendurar cartazes e tomar notas dos comentários dos participantes e assim também eu
consegui ampliar o meu conhecimento, após ter participado no intercâmbio de jovens dentro do mesmo projeto.
Com as apresentações de cada um dos participantes começamos a conhecer a realidade dos refugiados nos seus países, nas suas cidades.
Falar com diferentes especialistas portugueses que conhecem o assunto e, especialmente, conhecer e ouvir histórias reais de refugiados
que chegaram em Portugal, também me ajudaram a avaliar a situação na minha cidade. A participação de três voluntários da minha
entidade catalã também me ajudou a analisar a situação desde outra perspectiva.


Apesar do cansaço de fazer todo o trabalho que está por trás deste Training Course, ele ajudou-me a crescer como pessoa, a saber
como funciona um projeto assim e a aprender muito sobre a temâtica.
Quero terminar esta crônica com a frase de uma das participantes do TC:

“A refugee is just a term. Not all "refugees" have the same stories. They are not all the same! But yes, they all deserve the same rights!”

segunda-feira, outubro 16, 2017

Receita para tempos de revoltas e mudanças

A Cira chegou a Cascais a 12 de Setembro de 2017, apenas um dia depois da celebração do Dia da Catalunha mais convulso dos últimos anos.  Umas semanas antes do referendo marcado para dia 1 de Outubro a situação na região era, pelo menos, movimentada e a nossa voluntária reflecte agora como é viver desde fora um momento da importância do que se está a viver na terra dela.

11 de Setembro, dia especial, como sempre, e cheio de sentimentos à flor da pele, de emoções, de gritos e também de música. Tens que apanhar um voo no dia seguinte, queres sair, mas o teu coração diz que tens de estar em casa, que chegam tempos de mudanças e o 1 de Outubro está perto com um referendo no que votar.


Começas a viver uma nova experiência longe de casa. Pegas num pequeno lenço, numa camisa, num fuet e nalguns livros na tua língua para sentir a terra mais próxima. Longe é onde a tua identidade faz sentido. A pergunta que mais ouço é "és de onde? ". E a resposta é sempre a mesma: de Barcelona. Esta resposta é sempre seguida doutra questão "catalão ou espanhol?". A resposta é clara: catalão sem dúvida, porque embora saibas que não agradará todos, é esta a resposta que mostra o que sentes.
 
Moras longe, mas ao mesmo tempo, vives perto. Quando tens um pouco de tempo para pensar, lembras-te dos teus, da tua família, dos teus amigos e perguntas-te como estarão, o que eles andaram a fazer, embora nestes momentos as redes sociais nos mantenham atualizados com tudo.

A receita que usei para viver perto, apesar de estar longe de casa em tempos de revoltas e mudanças foi esta:

  • Trazer na mochila produtos locais.
Uma t-shirt que diz "Eu sou da Horta" que me lembra, onde quer que seja, que sempre serei da Horta e um lenço de quatro barras e uma estrela para mostrar ao mundo de onde sou.



  • Encontrar um grupo de catalães que estão em Lisboa, na mesma situação que tu.
Ter um grupo de catalães que vivem na cidade (sejam residentes, estudantes, voluntários, jovens, idosos, etc.) ajuda a regular as tuas emoções, a sentir-te acompanhado, a sair na rua para reivindicar quando precisas e a tomar decisões, como apanhar um avião para votar.

  • Ter internet, informar-te por muitos médios (Directa, El Nacional, Ara, 324, Twitter)
É essencial ter wi-fi, megabytes de internet de alguma maneira para estar informado no momento. Mas é importante aprender a selecionar a informação que chega, porque nem tudo é verdade.

  • Manifestar-se na embaixada
Sair para descobrir onde fica a embaixada e para chamar e reivindicar os direitos da minha nação (sempre acompanhada por outros catalães e pessoas que o apoiam).



  • Ir para votação
Comprar um voo para votar, embora seja caro. Se nos tempos de manifestações e rebelião já é difícil estar longe, é difícil imaginar um dia como o é não estar presente no dia dum referendo, ilegalizado pelo governo central.