quarta-feira, novembro 15, 2017

Dois meses portugueses

Eu sou a Cira e há quase 23 anos que o Koumera e a África decidiram começar a escrever as linhas da minha história. Esta história começa um 20 de Dezembro num pequeno apartamento no bairro de Horta (Barcelona), onde me esperavam uma irmã e uma avó fantásticas prontas para acompanhar e apoiar todos os capítulos da minha vida. Depois chegaram mais irmãos, sobrinhos, tios, primos… A minha história acabava apenas de começar, com os meus primeiros passos em casa, na aldeia, em Senegal, na escola, no esplai. Passos todos que me serviram para abrir novos caminhos e desde então eu já não parei de andar. No Xangó (o meu esplai) descobri que não tinha apenas pés, mas também asas para sair voando. Então eu quis usá-las para começar a explorar novos horizontes e pouco a pouco comecei a coleccionar aventuras: Berlim, Itália, Irlanda, França, o Estartit… E há dois meses atras começou o último capítulo do meu livro de aventuras. LISBOA.



O 12 de Setembro depois de despedidas, da festa da Catalunha e de um pouco das festas do Bairro de Horta, é hora de esvaziar o quarto e de pôr todas as minhas coisas dentro duas malas para começar uma nova etapa no outro lado da Península.
Um voo da TAP Portugal de duas horas marcou o início da aventura. Sem saber o que me esperava nem onde dormiria aquela noite, o meu corpo estava cheio de sentimentos: tristeza, alegria, ilusão, medo… Mas acima de tudo, de nervos e de vontade de conhecer tudo o que me esperava em terras atlânticas.



Chegar ao aeroporto e encontrar a Ana e a Elena (caras que já tinha conhecido na minha breve estadia no intercâmbio internacional “Youth Embassadors for a Change” em Maio passado) fiquei tranquila. Desta vez falaram Português e não percebia nem a metade das coisas que diziam, mas já comecei a sentir-me em casa. E agora sim, aqui começa a minha super-aventura que não começa bem em Lisboa, mas entre Cascais, São João do Estoril e muitos outros destinos.



Antes de que eu pudesse dizer que tinha uma casa, dormi na casa da Gina, uma mulher muito espiritual, amante do Caribe, das danças de salão e da medicina alternativa. Naquela casa pequena, de dois andares, eu tinha um quarto com um banheiro sem uma porta (digo banheiro e não casa de banho) na frente da cama, a minha primeira cama.

Durante a estadia em São João, tive a honra de ter como vizinha outra voluntária, a Pierina, uma peruana divertida e amorosa que começou a abrir-me passo pela cidade de Cascais, pela Rota Jovem (a minha organização de acolhimento) e entre os voluntários.

Com a Pierina estive poucos dias, mas os suficientes para fazer mil coisas, como passear em bicicleta, ir ao festival de iluminação de Cascais, descobrir a Bodeguita (um pequeno bar com música e bebidas cubanas), conhecer o Luís, ir às compras... E muitas outras coisas que fizeram que a Pierina se tornasse uma nova amiga.



Depois de muitos passeios pelo paredão de Cascais para São João com o pôr-do-sol de fundo, a minha viagem muda drasticamente. Um autocarro cheio de jovens voluntários portugueses entre os que também estou eu foi dirigido para Odemira, uma cidade na parte rural do Alentejo. Ali havia um colchão à minha espera no chão dum templo espiritual de uma aldeia ecológica (a minha segunda cama). Naqueles dias no Centro Ambiental de Cabaços vivi com o Manu e com quase 25 jovens de bairros sociais da região de Cascais. O Manu parecia uma personagem de conto, um idoso cheio de histórias e sabedoria, que tinha viajado por todo o mundo e que agora tinha criado essa pequena cidade para convidar jovens e famílias a viver com ele. Os 25 jovens carregados de energia partilharam durante quatro dias as suas habilidades para tentar diferentes estilos de danças, acrobacias, malabarismo, entre outros.
Uns dias longe da capital para conhecer jovens portugueses com uma vida muito diferente da minha; para começar a pronunciar as minhas primeiras palavras no idioma deles; para partilhar noites de fogueiras e violão com famílias israelitas; para construir uma domus geodésica; para rir e para fazer novos amigos.



Aquela semana cheia de experiências acaba com um voo de avião para casa. Dia 30 de Setembro, o aniversário da minha irmã e o dia anterior a uma votação importante para a minha terra, voltei a casa para cumprir com as minhas responsabilidades de irmã e de catalã.
Essa viagem marcou um antes e um depois. Um fim-de-semana cheio de sentimentos, para voltar e instalar-me por fim na capital portuguesa.



Dia 2 de Outubro a Elena estava de volta para esperar-me no aeroporto, desta vez com uma das minhas futuras colegas de casa, a Domi. Desta vez, não íamos para São João, mas para um albergue lisboeta, onde a minha terceira cama estava à minha espera, para partilhar quarto com mais dois voluntários: o Diego, de Madrid e a Nadejda, de Sofia. No dia a seguir, conheci a Andrea, galega, e a Ileana, romena. Os seis juntos começámos a descobrir a cidade e, pouco a pouco, fomos ao nosso futuro apartamento. Em três dias já poderíamos inaugurar a nossa casa dos Restauradores e eu estreei a minha cama atual (a quarta). Uma semana a montar beliches, a colocar as coisas no lugar certo e a arrumar tudo para começar a sentir-me em casa.



 E novamente, a minha viagem levou a uma nova bifurcação com destino no norte de Portugal, em Guimarães, onde os portugueses dizem que este país nasceu. A minha quinta cama num quarto partilhado com uma italiana e uma finlandesa, num albergue onde estivemos 25 voluntários do SVE para fazer o On-Arrival Training, uma formação para aprender mais sobre os projetos dos outros voluntários e para falar sobre nossas condições como voluntários europeus.

Finalmente, depois daquela semana voltei para a minha casa e para o qual já eu digo o meu quarto, partilhado com o Diego, e começo a minha nova rotina. As aulas de Português às segundas, quartas e sextas-feiras. As aulas de capoeira às terças e quintas-feiras. O forro às quartas e as visitas aos mercados de frutas e artesanato nos fins-de-semana. Os jantares e as tardes da guitarra com os novos amigos portugueses e com os amigos catalães (a Mònica e o Marcel) que nos encontramos de volta aqui.


E todos os dias não feriados ir à Rota, a minha associação de acolhimento. Na Rota, por enquanto, ajudo com diferentes tarefas a Ana, a Elena, o Alex e a Bea, mas já tenho que começar a pensar sobre as atividades que eu quero fazer aqui com os jovens. Agora já posso dizer que a Rota é a minha segunda casa porque eu trabalho num ambiente muito agradável. Os voluntários e a malta da direção vêm para cumprimentar e muitas pessoas na rua vêm também perguntar coisas, estudar, lanchar… Há um ambiente muito jovem e o almoço é o meu momento favorito, onde todos nós nos sentamos a conversar.
 
Depois de muitos dias, posso já dizer que na cidade das sete colinas entre pores-do-sol, pastéis de nata, fados, ladeiras e carros eléctricos, sinto-me em casa!



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