quarta-feira, novembro 29, 2017

Cá estou eu, Lisboa!

A Domiziana tem 22 anos e muitas histórias para contar. Siciliana de Messina, já morou no Chile e agora está connosco em Portugal para fazer o seu SVE na ALEM. Ela, que acredita mesmo na luta pela inclusão social e na igualdade entre todas as pessoas, está a trabalhar nas escolas do bairro da Ajuda em Lisboa com o objectivo de superar todos os desafios que tem pela frente e deixar a sua marca daqui a 8 meses.

O meu primeiro encontro com Lisboa aconteceu implicitamente há alguns meses atrás, ao voltar da América Latina, quando eu me tinha prometido a mim própria que aprenderia Português com o propósito de poder voltar áquele continente maravilhoso e ter a capacidade de poder comunicar em todos os países. Quando acabei o meu curso na universidade, uma coisa era certa: eu queria arriscar, ver quais eram as minhas habilidades e também os meus medos. Assumir a responsabilidade de sair da minha zona de conforto e ter a certeza do que será o meu futuro. Desta forma Lisboa chegou, de repente. Eu conheci uma associação maravilhosa em Palermo, CEIPES, e graças a eles um projecto, “Strengthen the bond of inclusion”, que se desenvolve com um SVE - Serviço deVoluntariado Europeu de 9 meses de duração em Lisboa.

E cá estou eu!

Numa viagem em dois aviões e com tantas horas de duração como para fazer invejar qualquer ida a outro continente foi como há já dois meses eu cheguei à Lisboa "sedutora", como alguém a definiu recentemente. Aqui qualquer ângulo se torna uma descoberta e fica difícil não considerar a ideia de nunca parar para dormir. Lisboa é as sete colinas e os dois lados separados do estuário do Tejo, o que está a faltar para não me sentir em casa? (eu sou italiana, e em Roma também temos sete colinas, e siciliana, onde temos também o Estreito de Messina).


O meu projecto de voluntariado está relacionado com a inclusão social. Quando há uns meses atrás eu terminei o meu curso estava indecisa e não sabia se continuar a estudar para aprofondar melhor naqueles temas que sempre me tiveram curiosa do ponto de vista teórico ou se pôr em prática os conhecimentos adquiridos e, também, descobrir quais eram as minhas habilidades práticas e de adaptação a situações diversas. A alternativa a este projecto teria sido o começo dum mestrado em Geografia que fornecer-me-ia as bases para entender como a construção das grandes cidades pode influenciar a nível económico e social uma população. É por causa disto que é muito interessante para nós não olharmos a cidade com olhos de turista. Tenho a possibilidade de estar a trabalhar na parte "escondida" desta cidade sendo protagonista da luta contra a exclusão, a segregação e a ideia de uma divisão social inexorável, contribuindo à ideia de que ninguém é inferior ao outro e que não é necessariamente um contexto social que vai influenciar a formação, o crescimento, a vida ou as possibilidades duma pessoa. É muito agradável ver os jovens rebeldes (e não só) com muita vontade de se expressar e cheios de recursos apesar das poucas pessoas que acreditam neles. E é uma grande honra ter a possibilidade de consciencializar sobre isto.



Do outro lado, estou a viver numa zonas mais centrais de Lisboa junto com cinco companheiros de viagem vindos de cidades europeias diferentes: a Andrea de Santiago de Compostela; a Cira de Barcelona; o Diego de Madrid; a Nadejda de Sofia e a Ileana de Bucareste. Isto é para mim uma oportunidade incrível de interculturalidade: o confronto diário com ideias diferentes, com modelos de educação diferentes e com diversos estilos de vida é para mim uma fonte de inspiração e de crescimento pessoal. Isto para além da possibilidade de me deslocar facilmente e para diariamente comparar as diferenças entre "esta Lisboa e a outra", considerando que todas as estruturas onde nós trabalhamos estão na periferia de Lisboa.


As organizações nas quais nós trabalhamos são principalmente jardins de infância, escolas e associações. Com a ALEM -Associação Literatura e Mediação, quatro de nós complementamos o trabalho dos professores através da proposta de laboratórios e workshops que principalmente pretendem estimular o interesse pelo estudo dos alunos e o conhecimento por parte das instituições da arte, do desporto e da música como elementos facilitadores da aprendizagem. Também é importante o trabalho de estimulação do movimento especialmente na Fundação LIGA, que se ocupa de “procurar responder às necessidades e interesses de cada utente, (...) com condicionamentos da sua funcionalidade física, social e/ou cultural, (...) com programas abrangentes, sempre com laboratórios artísticos.”

O primeiro mês foi sobre de tudo um mês de observação. Os meus companheiros e eu visitámos todas as estruturas, do Bairro da Ajuda com o jardim da APIA (Associação de Protecção à Infância da Ajuda), a Associação de Actividades Sociais do Bairro 2 de Maio e a Fundação LIGA, até o Bairro da Outurela com a Escola Básica Sophia de Mello Breyner, onde estão sobretudo os meninos jovens das comunidades africanas e ciganas de Lisboa. Este mês certamente foi útil para entender as nossas preferências e para reflectir sobre quais das nossas propostas poderiam ser mais oportunas para as diferentes estruturas. Para além disso, nós também fazemos parte de seminários e conferências, onde nos informaram sobre o conceito de educação de 360 graus e sobre métodos alternativos como a arte,em tudas as suas facetas. Graças à Rota Jovem e ao SVE - Serviço de Voluntariado Europeu, todos nós temos a possibilidade de ser apoiados em qualquer questão e de fazer parte dos vários projectos que eles desenvolvem na associação.


A escolha das estruturas nas quais trabalhar esteve baseada no nosso interesse pessoal. Eu decidi apontar principalmente para algo que eu nunca tinha experimentado e apesar de eu fazer parte em projectos diferentes em instituições diferentes, o meu trabalho desde o fim do mês de Novembro está focado em ajudar nos jardins de infância e aos jovens com deficiência, mas também num projecto de cinema com os meninos da escola básica.
O objectivo do projecto é não apenas transformar a nossa contribuição numa inclusão social mais sólida e possível mas também concretizar a máxima do “do ut des” enquanto se trata duma ajuda mútua.


Este projecto e esta experiência são então o começo duma descoberta pessoal, do conhecimento da cidade das mil descobertas, com edifícios vazios mas cheios de histórias e a vontade de lutar por aquilo que merece a pena. Com portas meio abertas das quais sai a voz duma mulher acompanhada pela maravilhosa viola de doze cordas. Significa a possibilidade de apresentar as culturas diferente na minha própria casa, com os meus companheiros de viagem e com as diferenças entre todos nós, até a mistura maravilhosa de culturas que eu encontro novamente nas escolas junto com as comunidades africanas e ciganas.


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